
Os políticos e líderes empresariais precisam rapidamente de traçar uma meta ambiciosa para travar a perda da floresta, como parte dos esforços para conservar a biodiversidade e combater as mudanças climáticas, segundo o novo relatório da WWF, “Florestas Vivas” (Living Forests).
O primeiro capítulo do relatório Florestas Vivas, divulgado hoje, examina as causas da desflorestação e identifica as oportunidades de mudança nos negócios para um novo modelo de sustentabilidade, que pode beneficiar governos, empresas e comunidades.
Baseado numa nova análise global que aponta para que mais de 230 milhões de hectares de floresta poderão desaparecer até 2050 se nenhuma acção for tomada, o relatório propõe que os responsáveis políticos e as empresas se unam em torno de uma meta de desflorestação e degradação florestal zero (ZNDD), que deve ter o ano de 2020 como horizonte de referência mundial, para evitar as alterações climáticas irreversíveis e reduzir a perda de biodiversidade.
"Estamos a desperdiçar florestas por não conseguirmos resolver questões políticas vitais, tais como a governança e os incentivos económicos para mantermos a floresta viva", disse Rod Taylor, Director do Programa Florestas da WWF Internacional.
Empresas e governos precisam das florestas
O primeiro capítulo do relatório surge na altura em que os líderes empresariais e políticos se reúnem em Jacarta, na Indonésia, para a Conferência Global Negócios para o Ambiente (Business 4 Environment -B4E). A conferência será dirigida pelo Presidente da República da Indonésia, Susilo Bambang Yudhoyono.
"Os duplos imperativos da desflorestação e degradação florestal zero (ZNDD) e o objectivo de fazer face à procura global crescente de materiais e energia constituem desafios e oportunidades de negócios para o sector de produtos florestais", afirma o documento da WWF. "Os produtos florestais são renováveis e, quando provenientes de florestas naturais e plantações bem geridas, tendem a ter uma menor pegada do que as alternativas, como aço e plástico, provenientes de fontes fósseis."
No primeiro dia da conferência, as empresas de mineração, silvicultura e de óleo de palma que operam na vizinha ilha de Bornéu, irão reunir-se no âmbito do projecto da WWF Coração do Bornéu: Rede de Negócios Verdes (Heart of Borneo Green Business Network).
Na cimeira, a WWF vai apelar a que as empresas florestais adiram à Rede Global de Comércio e Florestas (GFTN – sigla em inglês); a organização pretende desta forma e em parceria com o sector corporativo trabalhar na triplicação da quantidade de madeiras certificadas pelo FSC (Forest Stewardship Council) da região. Mais de 40% das florestas da ilha estão sob a concessão do sector privado; cerca de 23% (6.000.000 hectares) está sob gestão da indústria florestal.
O Carrefour, retalhista líder na Indonésia, respondeu a este apelo, ao tornar-se membro da rede GFTN. A partir de hoje, os dois maiores fornecedores de lenços de papel do grupo na Indonésia, a PT Graha Kerindo Utama e a PT Graha Cemerlang Paper Utama estão comprometidos com os negócios sustentáveis no âmbito do Forest Stewardship Council (FSC).
"A nossa ambição é simples e forte: tornarmo-nos o retalhista de preferência. Isso só pode ser alcançado ao gerirmos os nossos negócios de retalho de uma forma responsável e sustentável", disse RM Adji Srihandoyo, o Director Corporativo da PT CARREFOUR.
Coração de Bornéu - um modelo de colaboração
Mais do que nunca, o sector corporativo está a trabalhar no caminho da gestão florestal sustentável e os governos estão a reforçar os critérios de uso da terra e a desenvolverem incentivos económicos e fiscais na ilha, um dos lugares mais ricos em floresta do planeta.
No terreno, a WWF e os seus parceiros locais estão a desenvolver projectos-piloto para demonstrar a viabilidade destas abordagens.
"No coração de Bornéu, exemplos concretos de como funcionam estes sistemas estão a surgir. A WWF Indonésia reconhece que a sustentabilidade não ocorre do dia para a noite. Apelamos ao sector empresarial para se juntar a nós e connosco dar os primeiros passos no caminho para uma economia verde e um futuro de baixo carbono, não apenas no Bornéu, mas igualmente em Sumatra e Papua", disse Pak Efran, Director-executivo da WWF-Indonésia.
Actualmente, na ilha de Bornéu, existe uma área de 220.000 km2 destinada à conservação e desenvolvimento sustentável chamada de Coração do Bornéu, onde estas ideias estão a ser postas em prática.
ZNDD não é uma barreira para as empresas de base florestal sustentável
O objectivo de desflorestação e degradação florestal zero até 2020 significa que não existirá perda total da área florestal ou da qualidade da floresta e que uma nova plantação de monocultura não compensa a perda de floresta tropical intacta. O objectivo é que a perda de florestas naturais ou semi-naturais seja reduzida a quase zero, contra os actuais 13 milhões de hectares por ano, mantendo esse nível por tempo indeterminado.
Para entender o que isso significaria na prática, a WWF desenvolveu o Modelo Florestas Vivas com o Instituto Internacional para Análise de Sistemas Aplicados (IIASA), que constitui a base para o Relatório Florestas Vivas.
Os projectos Modelo Florestas Vivas afirmam que a atitude "nada fazer" poderia conduzir à perda de mais de 230 milhões de hectares até 2050.
"O Modelo Florestas Vivas mostra que a conservação das nossas florestas é possível e urgente. Mas não será fácil ", disse Taylor.
Fazer a diferença agora e para 2050
"Uma melhor governança e incentivos económicos permitirão retirar mais privilégios das florestas e obter um uso mais produtivo da terra já degradada", afirmou Taylor. "Isso garantiria terras agrícolas suficientes e plantações de árvores e florestas bem geridas para fazer face à procura mundial actual de madeira e alimentos, sem a necessária perda das florestas."
O relatório conclui que o objectivo zero relativamente à perda da floresta a longo prazo exigirá respostas face às crescentes pressões sobre as mesmas, devido à procura de alimentos, materiais e combustível para uma população crescente, que deverá atingir 9 biliões de pessoas até 2050.
"No curto prazo travar a desflorestação resume-se a uma melhor governação", advertiu Taylor, "mas como à medida que caminhamos para 2050, e uma vez que a previsão aponta para um aumento da população além dos 9.000 milhões, teremos de cortar o consumo excessivo e o desperdício de alimentos e energia, e impulsionar a produtividade das explorações agrícolas e florestais para manter a perda de floresta em quase zero ".
Saiba mais sobre o Relatório "Florestas Vivas" aqui
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