Investigadores revelam interações invisíveis entre plantas invasoras e plantas nativas

Isabel Palma (14-03-2012)
Imprimir
Texto A A A

A interação entre as plantas nativas e invasoras ocorre a distâncias maiores do que se pensava. Esta descoberta foi revelada por uma equipa de investigadores europeus que inclui portugueses.

Uma equipa, constituída por investigadores do Centro de Biologia Ambiental da Universidade de Lisboa e do Departamento de Ecologia Experimental e de Sistemas da Universidade de Bielefeld, verificou através de uma inovadora metodologia com isótopos de azoto que as plantas nativas e invasoras interagem a maiores distâncias do que se pensava.

Ao estudar o impacte de uma acácia australiana invasora na duna costeira de Pinheiro da Cruz, no concelho de Grândola, a equipa verificou que o impacte é muito grande apesar da invasão se encontrar na sua fase inicial.

Segundo os autores, a acácia induz um enriquecimento do solo em azoto que é detetado, de forma significativa, na vegetação nativa a distâncias consideráveis da planta invasora. Esta distância chega a áreas que, normalmente, seriam consideradas ainda “não invadidas”, o que apresenta implicações para a conservação. Estes resultados são publicados dia 14 de março na revista Ecological Letters.

O azoto é um fator chave no resultado das interações entre as plantas. Num ambiente pobre em nutrientes, como é o caso de uma duna costeira, o enriquecimento de azoto provoca alterações na composição da comunidade de seres vivos, com impactes negativos significativos para as plantas nativas.

A maioria do azoto que existe no nosso planeta encontra-se na forma gasosa na atmosfera. Para poder ser utilizado pelas plantas o azoto atmosférico tem que ser transformado em azoto orgânico, ou “fixado”. A fixação de azoto é uma propriedade de bactérias que vivem muitas vezes em associação com plantas leguminosas, como a Acacia longifolia.

Devido à presença de bactérias fixadoras de azoto, a acácia australiana introduzida em Portugal está associada ao enriquecimento do solo em azoto que tanto a própria acácia, como as outras plantas podem usar.

Contudo, numa zona normalmente pobre em nutrientes como as dunas costeiras este enriquecimento não é positivo ao contrário do que se poderia pensar. A presença de azoto afeta a vegetação nativa que está adaptada a baixas concentrações de azoto e induz o crescimento da acácia australiana, competidor feroz das espécies nativas.

A incorporação do azoto fornecido pela planta invasora reflete-se nos tecidos das outras plantas. Para detalhar a interação entre as acácias e as outras plantas, os autores mapearam a abundância de azoto utilizando um arbusto endémico como "marcador", a camarinha (Corema álbum). Para este efeito mediram a quantidade de azoto nas folhas da camarinha e notaram que esta quantidade aumenta significativamente com a proximidade da acácia. Mas o mais surpreendente foi a distância alcançada. O enriquecimento em azoto nas folhas do arbusto endémico foi detetado a uma distância superior a três vezes a área ocupada pelas acácias.

O enriquecimento em azoto avança à frente da acácia. Desta forma a planta invasora prepara o terreno antes mesmo da sua propagação. E este impacte é de longa duração, pois o enriquecimento em azoto persistirá, por algum tempo, mesmo depois do invasor ter sido eliminado.

"Neste estudo utilizamos índices de azoto – o que não é novo, já tinha sido feito antes. Mas nós mapeámos a uma escala muito mais fina – essa é que é a novidade que produziu resultados surpreendentes", explicou Cristina Máguas.

O método é importante para a conservação pois permite identificar precocemente os efeitos associados às invasões por plantas fixadores de azoto, bem como monitorizar a persistência destes efeitos em processos de erradicação. Também pode ser utilizado para detetar os efeitos da contaminação por amónio oriundo de agricultura intensiva ou de poluição industrial.

*Este artigo foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico

Fonte: Centro de Biologia Ambiental da Universidade de Lisboa - CI

Leituras adicionais:

Plantas Invasoras em estudo na Universidade de Coimbra

Espécies Exóticas

Técnica de criminologia pode ajudar a combater espécies invasoras

Promoções Naturlink e Clube Naturlink

Documentos recomendados:

Plantas invasoras em Portugal – fichas para identificação e controlo

Assessment and Control of Biological Invasion Risks

Comentários

Newsletter