Comportamento de marcação olfactiva de Genetas na Serra de Grândola

Hugo Costa
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O padrão e grau de utilização de 43 latrinas (distribuídas por uma área de 22,3 Km2) de geneta, Genetta genetta, foi avaliado entre Outubro de 1999 e Junho de 2000, através da sua monitorização durante 13 dias por mês. Foram identificados e contados os dejectos que se encontravam diariamente em cada latrina, o que permitiu avaliar as variações sazonais no número de dejectos depositados. Este foi semelhante no Outono e Inverno, tendo sido significativamente menor na Primavera, situações que já foram observadas por diversos investigadores tanto em Portugal como no estrangeiro. Observaram-se dois picos no número de dejectos encontrados. Um em Outubro, que se pensa estar relacionado com a dispersão dos animais jovens, que nesta fase da sua vida começam a exibir o comportamento de marcação e a procurar novos territórios para aí se estabelecerem, e outro em Janeiro que coincide com o pico da época de cio destes animais, durante o qual se costuma verificar um aumento da frequência de marcação. Verificou-se uma grande diminuição no número de dejectos de Abril a Junho e que coincide com a principal época de partos desta espécie. Nesta altura os animais costumam reduzir o seu comportamento de marcação, uma vez que diminuem consideravelmente a sua actividade geral para prestação de cuidados parentais.

Foi também analisada a relação entre diversos parâmetros ambientais e a utilização das latrinas. Não foram encontradas diferenças significativas entre o número de dejectos e a nebulosidade, o vento, a precipitação e a luminosidade da lua. Foi encontrada uma correlação positiva entre a duração das noites e o número de dejectos, que se deverá ao maior número de dejectos encontrados durante o Outono e Inverno, altura em que as noites são maiores e que se pensa que as genetas passam mais tempo em actividade.

Um resultado bastante interessante foi o facto de para além dos dejectos de geneta, terem também sido encontrados nas suas latrinas, dejectos de fuinha (Martes foina) e de saca-rabos (Herpestes ichneumon), algo que até agora não foi descrito em nenhum estudo e que necessita de um estudo pormenorizado para ser devidamente explicado.

 


O último objectivo deste trabalho consistiu em verificar de que modo variava o grau de utilização das latrinas em função dos biótopos envolventes. Para tal, através da fotointerpretação de ortofotomapas, elaborou-se uma carta de uso do solo da área de estudo baseada em 11 biótopos distintos. Posteriormente, foram seleccionadas 22 latrinas, caracterizando-se uma área de 500m envolvente a cada uma delas com base em 47 variáveis de habitat. Foi utilizado o método das k-médias para agrupar as latrinas em 2 grupos consoante o seu grau de utilização (moderado e elevado) e recorreu-se a uma análise de regressão logística para elaborar um modelo matemático que permitisse prever quais os factores, a nível de biótopo, que influenciam o grau de utilização de latrinas por parte da geneta.

A interpretação do modelo obtido revela que as latrinas rodeadas por maiores zonas de montado sem sub-coberto são as menos utilizadas, o que leva a crer que têm menor importância para a geneta. Isto pode dever-se à pobreza deste biótopo em termos de refúgios e de recursos alimentares. O facto dos restantes biótopos estarem bastante menos representados, e a elevada interpenetração que existe entre eles, pode fazer com que não seja matematicamente possível avaliar a sua contribuição individual no grau de utilização das latrinas pela geneta. De qualquer forma, tendo em conta que as genetas depositam mais dejectos junto aos habitats mais utilizados, provavelmente para defenderem os recursos de que aí dispõem de possíveis competidores, pode supor-se que os biótopos existentes na área que possuem uma estrutura mais densa são os mais importantes para esta espécie. Esta situação já foi de resto verificada por outros investigadores na área de estudo. Em especial, as zonas de matagal mediterrânico e de vegetação ripícola (ao longo das linhas de água), parecem ter um papel muito importante, sendo fundamental a sua conservação, pois albergam uma grande diversidade de espécies animais e vegetais, constituindo uma fonte de recursos alimentares e de abrigos para a geneta e para as outras espécies de pequenos carnívoros aí existentes.

Dado que a maioria dos estudos que abordam esta temática têm sido realizados com animais em cativeiro (o que coloca constrangimentos nas conclusões obtidas), o presente estudo revela especial importância, pois permitiu aprofundar os conhecimentos existentes sobre o comportamento de marcação de geneta em condições naturais. É no entanto de salientar que todos os resultados obtidos devem ser interpretados tendo em conta o tipo de paisagem em que este estudo decorreu, não devendo por isso ser generalizados. Uma vez que a geneta é uma espécie com uma ampla distribuição geográfica, decerto que deverão ocorrer muitas variações a nível comportamental de região para região. Este facto já foi constatado para esta espécie por exemplo ao nível do regime alimentar, da dimensão do domínio vital e dos locais preferenciais para a colocação de latrinas.


Esta espécie parece adaptar-se bem a áreas bastante intervencionadas pelo Homem, como é o caso daquela em que foi realizado este estudo. A razão desta boa adaptação deve-se certamente ao facto da área ser constituída por mosaicos de paisagem que se interpenetram, oferecendo assim à geneta uma grande diversidade de biótopos. É assim de salientar que a realização de trabalhos em áreas de montado é extremamente importante, uma vez que apesar de bastante intervencionadas pelo homem, possuem uma diversidade riquíssima a nível de fauna e flora. As medidas conservacionistas até agora propostas para a zona da Serra de Grândola, passam por uma melhor gestão do pastoreio, que provoca a destruição e degradação da vegetação natural, e pela gestão do corte dos matos e árvores velhas, que constituem importantes locais de refúgio para a maioria das espécies de carnívoros aí existentes. Há, no entanto, que promover mais estudos que permitam conhecer de uma forma rigorosa o modo como as espécies animais utilizam este habitat, de forma a que se possam por em prática estas e outras medidas para melhorar a gestão do montado.


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